quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Na Rua dos Cataventos....

Peço um café. Simples. Ele vem frio, acre, sem cheiro algum. Se minha intenção era me acalmar, após tomar esse café, creio que só piorei a situação.
A Rua dos Cataventos, local que sempre me trouxe muito bem estar, agora me pareceia um local sem sentido algum, opressivo, agoniante até. Todas essas sensações em sintonia com o meu interior; ansiedade, inquietude, nervosismo. Outro cigarro.
O que ele quer comigo? Será algo de grave? Temo que sim. Nossa amizade nunca foi das mais próximas. Ainda que nos últimos dias isso tenha um mudado um poco, estranho seu chamado de urgência. Meu Deus!, nessas horas que a gente vê como o tempo é relativo. Seus cinco minutos de atraso, para mim, parecem uma eternidade. Mais um cigarro e nada.
Se eu realmente não tivesse noção do que ele quer comigo, talvez tamanha apreensão não se fizesse presente. O pior de tudo é que eu imagino o que está por vir. Imagino não: eu sei. Eu sinto! Último cigarro; preciso comprar mais.
As pessoas passam, sinto que elas me olham e parecem de alguma forma perceber minha agonia. Logo eu, sempre tão calmo, sossegado, vejo agora meus chakras em total desordem. Tudo isso por conta de uma ligação. Uma ligação dele é verdade, mas somente uma ligação - que não durou nem um minuto: " Casa de Cultura, às cinco horas, no café, be there!"
Deu, lá vem ele. A tensão aumenta. Preciso urgentemente de um cigarro. A conversa finalmente tem início, sem rumo certo, aleatória. Agradeço por isso. Sei onde ele quer chegar. O final de semana, a prova da segunda, o rigoroso frio que se mostrava presente como se quisesse tornar aquela situação mais gélida, tensa... tudo isso passava despercebido. Detinha-me em brincar com a colher que ainda estava sob a mesa, próximo à xícara. Evitava encarar seu olhar. Naquele momento, seus olhos pareciam mais claro do que nunca e o seu brilho denunciava o que ele diria em seguida.
O que eu mais temia, o que eu mais desejava, tornara-se realidade diante de mim. Ele disse o que eu queria. O que eu desejava ardentemente. O que havia tirado meu sono durante várias noites. O que, com certeza, iria mudar as coisas dali pra frente. O que me dava uma certa expectativa de novos tempos, novos tempos de felicidade. De novos tempos sem conflitos. Sem conflitos internos. Novos tempos de verdade, da minha verdade, da nossa verdade.
Sempre gostei de discursos longos, sempre fiz discursos longos. Nunca gostei de bilhetes. Gostava era de cartas, longas cartas. Contrapondo tudo isso, foram três palavras, três pequenas palavras que mudaram a minha vida. Três palavras que, se não fossem ditas por ele, não fariam o menor sentido. Ele, logo ele!
Agora que minha inquietude já passou, agora que eu poderia ficar mais algumas horas conversando com ele, ele simplesmente se levanta e vai embora. Filho da mãe! Larga a bomba e vai embora. Deixa-me sem reação, sem saber o que fazer. Isso é engraçado: a gente fica imaginando infindavelmente uma situação, organiza meticulosamente todas as palavras a serem ditas, ensaia o olhar, o sorriso, até mesmo a posição das mãos. Porém, quando a situação se mostra concreta, ela se desenha totalmente diferente daquilo que imaginávamos. Então não te resta outra alternativa que não seja "deixar rolar"...
Já que ele se foi, fico eu aqui com os meus pensamentos, dimensionando o impacto que vai ter em minha vida o que recém foi dito.
A Rua dos Cataventos volta a me trazer paz, bem estar, leveza, felicidade. Mais um cigarro, mais um café. Dessa vez ele vem forte, com seu cheiro delicioso, muito quente e levemente doce e, como que prenunciando os doces tempos que estavam por vir, com uma bela camada de chantilly no topo.
Dezembro/2004


Acabou. Faz tempo, mas acabou. E pior, acabou o que nem bem tinha começado. Aí me dizem "O tempo cura tudo". Engano. Na verdade, o que o tempo faz é nos ensinar a disfarçar as feridas (para nós e para os outros). A gente oculta, esconde, encobre e até finge não perceber, mas elas continuam sempre ali; sensíveis, pungentes, dolorosas. Ao menor toque, como um tornado, (pequeno, porém intenso) elas ressurgem e se mostram mais perceptíveis do que nunca.
O tempo, definitivamente, não curou. Pelo contrário, aumentou, afligiu, torturou.



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